A Caravana... Por Jonatã Ferreira


A paisagem é lastimável, uma escuridão que ressoa na alma de qualquer indivíduo que atreva a se aventurar nesta região umbralina. Este rincão é habitado pelos mais nefastos espíritos, espectros que servem aos senhores das trevas, escravos do mal na sua maioria, vindos por escolha própria ou forçados por aqueles a quem ainda na carne solicitaram favores. Estes magos negros lutam diuturnamente para desarticular as forças do bem, enviando seus miseráveis combatentes contra os que fazem do amor e da caridade uma luta perene. Estes espíritos das trevas dominam seus semelhantes através do poder mental que exercem sobre os seres caídos, na sua grande maioria pessoas que no plano terreno enveredaram para o caminho largo do vício, das tentações, fazendo uso impróprio das faculdades mediúnicas as quais foram dotados ou simplesmente causaram o mal ao semelhante.
Neste sombrio contexto, surge um ponto de luz resplandecente, como a iluminar o breu das intermináveis noites daquela região. Um candeeiro que com luz diminuta aponta um caminho, tortuoso, mas único pelo qual a caravana deve seguir. Constituindo a falange, homens e mulheres em situação deplorável. Vestem farrapos do que um dia foi roupa, pedaços de um pano sujo, maltrapilho, quase que colados aos corpos, magros pela implacável fome. A pele de uma cor acinzentada, trazendo as marcas das torturas pelas quais passaram, é o registro incontestável de que foram vítimas de todas as maldades. O pranto e ranger de dentes ainda acompanham os filhos de Deus pelo vale de lágrimas e sangue, que por anos, séculos talvez, fez destes, espíritos perdidos. Mas a bondade do alto não abandona nem o pior criminoso. Após tantas dificuldades, eis que os emissários do Plano Astral enviaram um guardião para o resgate daqueles arrependidos.
A frente da caravana, um boiadeiro, tradicional na forma de se apresentar. Usando chapéu de abas largas e um poncho tão negro quanto a escuridão que os cerca, é a personificação do guia aguerrido e destemido, sendo dos poucos que conseguem adentrar os densos vales sombrios. Compõe ainda a indumentária, botas de couro pretas. Está montando um alazão, de pelagem igualmente escura, traz em seus apetrechos um comprido laço de couro e uma brilhosa adaga, sendo o cabo em formato de cruz, objetos magisticos que em muito auxiliam na preciosa tarefa. Para finalizar, o inseparável candeeiro, que corta o véu negro da noite, apontando a direção segura a qual devem seguir. Aquele protetor cumpre missão de resgate dos espíritos perdidos, guarnecendo os aflitos durante sua saída do Umbral, levando-os até um local seguro onde os socorristas do espaço possam lhes atender. O indelével serviço se conclui com a chegada em segurança até uma sessão mediúnica, para então com a luz das orações e o reerguimento, com as vibrações emanadas pelos médiuns possam ser amparados e ele assim retornar a sua importante missão de resgate.
Todavia, o trajeto é de extremo perigo. Não estão sozinhos e tampouco os mestres do mal deixarão que seus comandados partam sem qualquer resistência. Uma legião de espíritos bestializados é enviada para atacar os passantes, que se desviam como podem dos ataques sinistros. Mas o caminho pedregoso, cheio de curvas e penhascos não ajuda na travessia. Chove torrencialmente, a fim de atrapalhar ainda mais a visão dos viajantes. Em dado momento, pontiagudas pedras recai sobre a caravana, lançadas pela turba ameaçadora que se comprazem nas dores que causam. Os passantes buscam refugio nas encostas do caminho, em meio as árvores secas e espinhosas que ladeiam a estrada. Os ferimentos são muitos, mas a vontade de encontrar a luz é maior ainda. Seguem a caminhada e persistem os ataques. Como as pedras não foram suficientes largam espíritos que tomam a forma dos mais horrendos animais para atacar o grupo. O primeiro, um urso de proporções descomunais, em uma fúria devastadora avança com poderosas mordidas e com suas afiadas garras, momento em que o boiadeiro usa de seu comprido laço, para imobilizar o bestial animal. Não obstante a isso, uma alcateia de lobos tenta destroçar a coluna formada em busca da redenção. Mas o preparado alazão não permite que se aproximem, distribuindo coices que os afugenta. Onças ferozes avançam sobre o grupo, tentando arrastar os sofredores espíritos que o compõe de volta para o lado negro. Mas o experimentado boiadeiro, que tantas lides cumpriu, com sua imperiosa adaga, desfere ‘planchaços’ que desarticulam a rede de ataques. A cada golpe da arma branca contra as feras, a caravana conseguia tomar algumas léguas de distância dos agressores, estando a poucos quilômetros de seu destino final. Os mestres das trevas, prevendo que seriam derrotados mais uma vez, lançam seu último e mordaz ataque, onde as mais ladinas serpentes em impressionante velocidade rapidamente alcançam os necessitados. O veneno das víboras é mortal, mas ínfimo ao poder emanados pelos guias espirituais. Novamente o boiadeiro, condutor da tropa, braço forte a serviço do bem, usa da luz do seu candeeiro, para dissolver as trevas dos peçonhentos répteis. Praticamente o homem soltava fogo pela boca, pois tomava grossos goles de um líquido que combinado com o fogo do candeeiro se tornava uma arma inimaginável contra as serpentes.
Com isso, a chegada inevitável se transformou em um grito de ódio e blasfêmia proferidas pelos espíritos trevosos, que cegos de ódio prometeram desarticular a qualquer custo o prestimoso serviço de resgate dos espíritos necessitados da região umbralina. Além disso, firmaram o ignóbil pacto de acabarem com os centros espíritas e seus trabalhos mediúnicos de assistência, pois estes se constituem como o maior entrave de seus planos nefastos. Já os aflitos, em prantos e soluços, manifestam-se por meio dos médiuns que ofereceram passagem e ao mesmo tempo oportunizaram que estes seres busquem a luz que tanto necessitam. Aos poucos, a guarda celeste, os socorristas do espaço, atenderam um a um, consolando no amor de Deus. São enviados aos hospitais do plano espiritual, alguns até mesmo recebidos por amigos e familiares.
Tendo alcançado êxito na missão, o incansável boiadeiro, pede luz para seu candeeiro, sendo esta oferecida em forma de boas vibrações e emanações do grupo mediúnico. Após um breve descanso, bebendo dos mais positivos fluidos energéticos, o boiadeiro se despede rumo a nova missão, agora no ‘Vale dos suicidas’, mas antes pede uma prece para Ogum/São Jorge, para que possa vencer todas as demandas. Jetuá, Boiadeiro!
Texto: Jonatã Ferreira  
Foto: Reprodução


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